terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Narciso, o herói mau compreendido




Narciso era um belo jovem, tanto em seu íntimo quando em sua aparência, era um filósofo, tinha por costume flanar, portanto rapaz muito distraído com as formas belas que se apresentavam em seu horizonte, afinal pessoas lindas sente-se inclinados a estar em volta de formas lindas.
Ele costumava se banhar em cachoeiras, na qual era contemplado pelas ninfas apaixonadas. Ele observava embasbacado o sol em forma alanranjada no céu, abaixando a cortina, e anunciando o fim de seu ato no Teatro celestial, porém o sol não voltava a seu repouso sem antes saudar a Narciso, levantado sua sobrancelha, como um sinal de regozijo e de afeto a seu tão ilustre admirador, então via-se o espetáculo do poente, com aquilo que foi se tomando por costume chamar de aurora.
Narciso andava na orla da praia, com suas sapatilhas em sua mão, ele chutava docemente areia em sua caminhada, a poeira chutada recebia um brilho, uma luz própria, e se transformavam em vagalumes, circundando a todos que seguem o rastro de Narciso, para que estes não se percam no caminho, um caminho em que se sabe o destino, porém não há mapas, bússolas ou gps, para se guiar, apenas a força irresistível da natureza, o poder do vento, o caminho que leva ao paraíso, o caminho do coração.
Se o mar está agitado na travessa desse fabuloso herói, as sereias que suspiram com sua fragrância solta pelo ar, se arrepiam com seu leve caminhar, sentindo seus corações dispararem com o aumento progressivo de seus passos, roga a Poseidon que acalme a maré em favor de seu amado, e o deus do mar, por não aguentar mais os gritos histéricos das sereias determinadas, atendem seu anseio.
Todas as guerras do mundo antigo foram travadas para conquistar nosso tímido e sereno herói, espartanos, gregos e troianos queriam a atenção de Narciso exclusivamente para si, porém ele apenas caminhava calmamente, de cabeça baixa em torno de destroços e fumaça de batalha, não olhava ao lado, o circulo que se formava olhando vorazmente sua direção. Ele falava consigo mesmo perturbado, porque o homem briga tanto? Porque que correm tanto, é necessário ter tanta pressa assim? Por isso julgo melhor estar na companhia de meu pensamento, pois é muito perigoso estar em voltas de selvagens que poderam trucidar minhas vísceras, e para não me pertubar com a violência alheia, vou me voltar apenas criar meu mundo, mergulhar na profundesa de meus pensamentos, e minha mente será meu casco de tartaruga, que me proteje e me serve de morada, assim como também será minha oficina.
Até os deuses queriam tomar ele para si, usavam de várias artimanhas para conseguir, porém Narciso permanecia impenetrável em seu mundo, sua couraça era extremamente forte para resistir até os deuses, Eros o lançou flechas, que entortaram-se próximo a Narciso, ou por vezes
se repeliam, Afrodite dançou nua diante de sua fronte, atirando pétalas, remexendo suas ancas, nosso herói admirou, porém não turbou seu coração e seguiu o caminho em busca da terra prometida. As ninfas comentavam entre elas, nos bosques ouvia-se um som estridente dos animais, eram elas fofocando, uma falava como que pode um ser tão lindo estar sempre sozinho? Outra respondia:- Aquele rapaz é muito metido, pensa que é maior que Zeus? Quem é ele para nos rejeitar? um reles mortal! Havia entre elas uma mais exaltada, que não parava mais de falar, sua voz para os que passavam era tido como semelhante a maritacas no cio! Essa então exclamou: Eu vou seduzir esse homem e o terei para mim, pois eu consigo, sou mais bela que vocês, e sem esse homem eu não vivo! Ele me tira o sono, ele é meu sonho, mesmo quando acordada.Suas companheiras ainda tentaram conter-la nessa sua missão auto-destrutiva, alertando de que até os deuses tentaram seduzi-lo e ele não se desviou de seu íntimo, mas a ninfa, que tinha o Nome de Eco não deu ouvidos ao alerta, e finalizou: Vocês falam isso por que são covardes, e sinto que há uma inveja latente dentro de vocês, pois claramente sabem que não tem condições de conquistar esse fabuloso rapaz, vocês perceberam que os deuses o fizeram para mim, e não aceitam, por isso querem me impedir a buscar o que é meu! Após essas palavras, Eco saíu ao encontro de Narciso.
O encontrou observando os galhos de uma árvore, passando seus dedos acariciando as folhas, então seu coração disparou, ela trêmula chegou diante de seu amado, e lhe perguntou com a voz falha quase que gaguejando- posso ficar um pouco com você ?
Ele respondeu sorridente: Claro que sim, fique a vontade!
Nos primeiros instantes eles não falaram nada, ela olhava para baixo, e ele olhava curioso ao céu, até que então, a ninfa observa aos pés de Narciso uma flauta, feita com gravetos de árvore, com uma folha em sua ponta.
Então ela perguntou:
-O que é isso meu nobre rapaz?
Ele a um primeiro momento não entendeu a mensagem, porém ela voltou a perguntar do objeto, o puxando pela manga, o despertando.
Então responde, é apenas um graveto que faz barulho entregue por um satírico que me acompanhava em minhas andanças.
Eco pergunta curiosa; como se faz barulho nisso? Na qual Narciso responde, é só colocar a sua boca em uma das pontas e soprar, deixe te mostrar, é assim, então ele soprou e soou um belo som feito o som de um rouxinol.
Ela se apresou em pegar o instrumento nas mãos de Narciso, acariciando levemente seus dedos, - Deixe-me tentar fazer um som! Ela pediu, quando tentou assoprar, saiu apenas vento, na qual fez com que seu amado risse, a princípio Eco ficou muito irritada com as gargalhadas dele, porém conforme ela encarava seu semblante, passou a admira-lo mais ainda, e seu coração também foi preenchido de alegria fazendo com que também cai-se na gargalhada.
Então Narciso se despede, e ela insiste que fica-se mais um tempo com ao seu lado, pois nunca ninguém tinha feito ela se sentir tão bem. Ele fala, hoje não posso ficar, eu tenho que seguir minha caminhada, tenho que ir a Delfos, para que seja revelado meu destino, de como encontro o acesso ao monte olimpo, e me servir do banquete dos deuses, na qual sou convidado de honra!
Eco guardando uma grande fúria, porém disfarçando seu semblante, concorda com a decisão de Narciso, e ambos se despedem mas combinam de se encontrar em
outra oportunidade debaixo dos carvalhais.
Por dias eles se encontraram e conversaram, em testemunha das formas da natureza e dos espíritos dos bosques, até que ocorre o momento do adeus, e nosso herói beija a testa de sua companheira com ternura e lhe diz que seguirá seu caminho sozinho,
porquanto é necessário encontrar minha nirvana, minha purificação, meu auge, minha consagração, em seus olhos eu vi, notei que não poderei cumprir essa trilha com você, então
o melhor a fazer é me esquecer! Eco ficou muito chateada com essas palavras frias e realistas desferida por seu amor idealizado.Então ela suplicou a para que seu amado fica-se eternamente ao seu lado, agarrando-lhe pelas pernas falou lhe que seu destino é habitar eternamente a sua caverna, e ser a candeia de sua alma. Narciso respondeu lhe que ele possui muito afazeres em sua vida, muitos cuidados com seu mundo, com seu interior para se preocupar com o vazio de outrém, a minha caminhada é longa e árdua rumo ao centro do universo, o meu umbigo!
Ela a segurou com tanto ímpeto que rasgou um pedaço de suas vestes, mas ele conseguiu escapar, dessa armadilha sentimental.
Eco ficou tristonha, e no seu semblante jamais será vista a alegria de outrora, ela se fechou
em sua caverna, e selou seu destino a murmurar e refletir os gritos daqueles que bradam nas portas de seu lar.
Nêmesis a deusa das ordens sociais, do equilíbrio coletivo, viu que Narciso era uma ameaça para a conservação da vida, por não se enlaçar com outro de sua espécie e assim não gerar outro ser,
e se a ideologia de Narciso fosse difundida entre seus pares ele era o fim da espécie humana.
Portanto a deusa socialista (não confunda com socialite), tramou contra a vida de
nosso herói, e lançou a maldição de que, quando ele encontra-se o que mais ansiava, a sua imagem refletida em espelhos d'agua, certamente morrerás, esse é o castigo da impenitência
dele em não se dobrar as ordens sociais.
Narciso andava por um bosque por nome de Parságada, e no meio do bosque havia um lago chamado Walden, ele estava com muita sede e se aproximou ao lago.
Quando inclinou sua cabeça e estava com suas mãos em formato de conchas,
eis que ele observa o reflexo, e se encanta com tamanha visão, ele se viu dentro das águas,
o lago guardava Narciso dentro de seu íntimo, e finalmente a busca de nosso herói terminou!
Ele não teve dúvidas, saltou em busca desse paraíso perdido! E lá ele se uniu ao lago, para sempre, o seu verdadeiro amor, e dessa união foi gerado filhos, as flores narcisos que
circundavam a margem.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Juizo Final!

Eis que é chegado a hora da colheita, momento da verdade, porém estou tranqüilo pois de qualquer maneira meu objetivo será conquistado, a liberdade!
Posso perder tudo, posso zerar tudo, é uma questão de agir, ou de me permitir a inércia.
Fico feliz pois quem me ama continuará a me amar da mesma maneira, e nos seus braços poderei achar conforto em minha alma.
Em uma noite, eu vim feliz, cheio de entusiasmo e de confiança, porém eu vi que certas coisas não acontecem como planejamos, e de repente eu noto que minha virilidade foi ultrajada, e minha masculinidade questionada. Isso é por deveras humilhante. Então eu me atraso ao meu ofício, planejo pegar um ônibus para mesmo assim estar na presença de meus companheiros diários, porém aquela noite não, eu estava com minha auto imagem destruída, quebrado como espelho, eu fico atônito enquanto aguardo o ônibus, ele vem, porém eu não embarco, pois eu estava temendo o bulling que me aguardava como outrora, aquela noite eu não poderia suportar...
Estava eu apagado, secou-se todo o entusiasmo que explodia bucólicamente em minha alma, acabou a esperança. Então, depois de uma hora que estive no ponto de ônibus, em companhia de meu inimigo íntimo, cérberus, que me cobria feito uma nuvem, eu resolvi andar. Fui importunado na minha busca pelo fôlego perdido por prostitutos querendo se fazer de mocinha, eu apenas queria estar sozinho na minha viagem interior pelas andanças da madrugada solitária de minha cidade. Eu estive na praça principal, a porta de entrada de minha Parságada, e avistei um errante dormindo no acento desta praça. Eu o invejei amargamente por ele não ter nada, e portanto nada poderá perder, não ter preocupações quanto ao destino onde vai, pelo fato de qualquer lugar ser a casa dele, o céu ser o teto de seu quarto, por ele não precisar explicar nada para ninguém. Então por 30 minutos eu vivi feito um homem livre, eu senti o que é estar a contemplar as estrelas do céu pausadamente, por notar nas árvores formas de vidas alienígenas para mim, eu vi Deus quando caiu a folha da arvore, sempre avisando, tudo é minha vontade, sorrateiramente feito um sussurro a folha caiu, guiado pelo vento algumas vezes calmo, noutras impetuoso, então descobri, que a grande graça da vida é ser como o vento, que ao mesmo tempo poderá te refrescar, te permitir ter fôlego, como pode doravante, te empurrar, lançar fora tudo aquilo que não convém, limpando todo o ambiente para que assim possa-se permitir um maior espaço para que a beleza seja visível a todos.Esse vento fez me ter coragem de levantar daquele banco, e me deu fôlego para encarar a bagunça que fiz de minha vida! Esse vento é espírito, o Espírito de Deus!
Voltei a meu lar, onde meus progenitores estavam espantados com minha presença, pois deveria estar trabalhando, mas eu não quis explicar-lhes nada, então isolei-me em meu quarto para ruminar a minha lição recentemente aprendida.
Então tempestades surgiram em minha vida, porquanto plantei ventania, e agora chegou o momento da colheita. Dia 15/12/08 é dia de meu juízo, na qual independente do veredito, eu receberei o ônus da liberdade, porém eu quero ser livre com dignidade.